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Projeto Coralis: Portugal deu uma licença que nunca tinha dado. O que acontece a seguir?

Entrevista a Peter Beringer, Country Manager Portugal, Mariculture Systems Portugal Lda.
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Projeto Coralis: Portugal deu uma licença que nunca tinha dado. O que acontece a seguir?

28 de Maio de 2026

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Quando a Mariculture Systems recebeu o Título de Atividade Aquícola (TAA) por parte das autoridades portuguesas, não foi apenas mais um processo administrativo concluído. Foi o sinal de que a aquacultura offshore em Portugal deixou de ser uma ambição distante. O projecto Coralis, a instalar a 15 km da costa de Vila Real de Santo António, vai operar em pleno Atlântico com uma meta inicial de produção de 6.700 toneladas de robalo e dourada por ano, escalável até 8.000 toneladas. Peter Beringer explica o que distingue este projeto e o que ainda falta fazer.

 

 

Peter Beringer
Picture: Peter Beringer

 

O projeto Coralis foi concebido para operar em condições oceânicas de alta energia. O que distingue esta plataforma, em termos de resiliência e operação, dos modelos tradicionais de aquacultura costeira?

O sistema Coralis é uma plataforma flutuante permanentemente ancorada ao fundo do mar, a 75 metros de profundidade, o que permite que o sistema de jaulas, com 35 metros de altura, seja submerso até 30 metros abaixo da superfície. Os 350.000 m³ de água nas jaulas funcionam como lastro, de modo a que o sistema incline minimamente e permita a continuidade das operações. O sistema foi testado para ondas Hs9, ou seja, ondas significativas de 9 metros com picos de 17 metros. O design tem semelhanças com tecnologias comprovadas noutras indústrias de plataformas marinhas e acrescenta tecnologias orientadas por dados e inteligência artificial que facilitam as operações de crescimento em todas as posições das jaulas e em todos os estados do mar até Hs9. A plataforma terá uma tripulação permanente de sete pessoas e pode acolher até 20 pessoas para fins de investigação, funcionando como um Live Lab.

 


“A plataforma foi testada para ondas com picos de 17 metros”


 

O sistema de alimentação assistido por IA é uma das características mais distintivas do projeto. Que melhorias espera alcançar em termos de eficiência alimentar e redução de desperdício?

A tecnologia orientada por dados e IA monitoriza e antecipa o comportamento e o ‘apetite’ dos peixes, sabendo-se que estes reagem ao ambiente e às suas alterações, sejam elas meteorológicas ou de parâmetros da água. A ligação contínua a dados oceanográficos e meteorológicos, aliada à monitorização no local a vários níveis de profundidade, garantirá que os peixes recebem o que necessitam enquanto se minimiza o desperdício. A eficiência visa otimizar a qualidade de vida dos peixes – stress mínimo e absorção alimentar ótima –, onde outros fatores também desempenham um papel, como o enriquecimento ambiental, rações inovadoras, alimentação otimizada e estimativa de biomassa, que serão igualmente potenciados e monitorizados por tecnologia de dados e IA.

 

Com uma capacidade de produção anual esperada de 8.000 toneladas, que papel pode um projeto como o Coralis desempenhar na redução da dependência ibérica das importações de pescado?

Durante os primeiros anos de operação visaremos 6.700 toneladas, trabalhando activamente para maximizar e esgotar a licença total de 8.000 toneladas, sem comprometer o bem-estar dos peixes, a sustentabilidade e a qualidade. Tecnologia de alta capacidade, escalável e replicável é muito necessária tanto para o consumo doméstico português como para a procura no exterior, por exemplo Espanha, França, Itália e outros mercados de exportação, inclusive além-mar para os EUA. A resposta não é que toda a produção possa substituir as importações, embora parcialmente verdade. Olhando apenas para as duas espécies com que começamos, o robalo e a dourada, há vários aspetos a considerar. Primeiro, a origem das importações; segundo as perceções de desenvolvimento da procura de mercado; terceiro, as principais diferenças entre os mercados de Portugal e Espanha; quarto, o aspeto diferenciador de crescer com um perfil genético atlântico; e quinto, o potencial de crescimento de um novo cluster de aquacultura offshore no corredor Algarve – Cádiz.

 

A Europa come robalo e dourada maioritariamente turcos e gregos. O que isso diz sobre a competitividade da aquacultura europeia?

Sim, na Europa, 85% do consumo de robalo e dourada é importado. A maior parte é fornecida pela Turquia e pela Grécia, onde a aquacultura se desenvolveu numa indústria consolidada, fruto do reconhecimento precoce do potencial, do empreendedorismo pioneiro e de enquadramentos regulatórios que apoiaram esse crescimento. Em geral, estes fornecimentos representam volumes e preços de commodity, o que em Portugal é muito relevante dado o menor poder de compra comparativamente a Espanha, França e Itália. De acordo com o relatório da Apromar espanhola de 2025 (dados de 2023), em Portugal as importações de robalo e dourada ascendem a 20.000 toneladas de um consumo interno total de 25.000 toneladas, com uma produção nacional de 5.400 toneladas. Em Espanha, as importações representam 42.500 toneladas de um consumo interno total de 57.600 toneladas; a produção nacional – maioritariamente ao longo da costa mediterrânica – situa-se em cerca de 34.000 toneladas, das quais 17.700 toneladas se destinam à exportação No que respeita à produção nacional ibérica total, o Coralis contribui com 6.700 toneladas, sendo uma contribuição significativa para a capacidade de produção para fazer face ao crescimento da procura nos mercados domésticos e de exportação.

 

Existe procura de mercado para um produto de aquacultura de perfil atlântico, diferenciado do que hoje se importa?

As projeções de mercado incluem o crescimento da procura de pescado em geral, bem como especificamente para produto local, certificado e de elevada qualidade, com um tempo de chegada ao mercado muito curto, apenas horas ou 1 a 2 dias. Os resultados do projeto de branding e investigação de mercado da Apromar “Crianza Mares y Rios de España” demonstram isso. O Coralis permite o crescimento de peixes de perfil genético atlântico com características próximas das selvagens, provenientes da energia natural e dos nutrientes do oceano aberto. Espera-se que isso transfira uma parte da procura das importações para o produto nacional de aquacultura, especialmente nos segmentos HoReCa (hotel-restaurante-catering) e de mercado mais elevado.

 

O Coralis foi o primeiro projeto a receber uma avaliação de impacto ambiental para aquacultura offshore em Portugal. Como foi esse processo?

Portugal e Espanha têm diferentes prioridades para acelerar a aquacultura, especificamente offshore em mar aberto, e os enquadramentos regulatórios e ambientais para tal estão numa fase inicial. O Coralis está a demonstrar tecnologia pioneira e foi submetido a uma revisão rigorosa da sua Análise de Impacto Ambiental, tendo recebido a aprovação da Associação Portuguesa do Ambiente (APA) e o Título de Atividade Aquícola (TAA), para instalação numa área pré-aprovada e designada para aquacultura offshore.

 

O que distingue um peixe criado no Atlântico aberto de um peixe de origem mediterrânica?

Como referido, a escolha do robalo e da dourada de perfil genético atlântico criará um produto diferenciador face ao produto mediterrânico (oriental) em mercados onde os consumidores conseguem reconhecer essa diferença, criando assim parcialmente uma mudança na procura e o potencial crescimento de um novo segmento.

 

A primeira instalação é apenas o início? Há planos de replicação?

A primeira instalação do Coralis a 15 km ao largo de Vila Real de Santo António servirá como modelo para a replicação modular do sistema noutras localizações ao longo do corredor Algarve – Cádiz, pelo que existe potencial para criar impacto na redução da dependência ibérica das importações com futuras instalações por parte de terceiros.

 


“85% da dourada e do robalo consumidos na Europa são importados”


 

Este marco de licenciamento representa um ponto de viragem para a aquacultura offshore em Portugal?

Mais um pontapé de saída do que um ponto de viragem. A licença demonstra que a tecnologia Coralis e a metodologia Happy Fish podem cumprir os enquadramentos regulatórios e ambientais, e possivelmente contribuiu para o conhecimento para o futuro, onde tecnologia pioneira foi avaliada pela primeira vez. E provavelmente reforça a confiança na aquacultura offshore de várias perspetivas e junto de vários stakeholders: utiliza o oceano, onde há mais espaço do que em terra ou menos conflito com o turismo; é menos dispendiosa em energia e oxigenação, aproveitando aspetos físico-químicos naturais, nutrientes e correntes; é infraestrutura crítica para a segurança alimentar e a autonomia proteíca, um modelo escalável para replicação com valorização baseada na licença (25+25 anos), vida útil dos ativos (25 anos), produtividade potenciada por dados/IA e prémio ESG e de Segurança Alimentar.

 

Os projetos de aquacultura offshore estão frequentemente associados a processos complexos de licenciamento e regulação. Após esta experiência, acredita que Portugal está a tornar-se mais preparado para viabilizar projetos desta natureza?

É um marco ter recebido as aprovações das entidades envolvidas, mas isso significa ainda muito trabalho para organizar processos em torno dos termos e condições em cada próxima etapa de construção, instalação e operação, onde a monitorização será o guia para eventual adaptação de processos e tecnologias. Todo este processo, que inclui o conceito tornar-se realidade e depois operar, será uma curva de aprendizagem para todos os intervenientes, incluindo as entidades portuguesas envolvidas nos enquadramentos regulatórios e ambientais. O rigoroso processo do primeiro AIA para aquacultura offshore de grande quantidade será definitivamente mais fácil com os próximos projetos.

 

Portugal é frequentemente destacado pelas suas condições oceânicas e experiência marítima. O país poderia posicionar-se como terreno de teste e demonstração para tecnologias de aquacultura offshore na Europa?

Portugal já trabalha arduamente para se posicionar como Blue Pioneer, alicerçado no seu legado marítimo, pois este foi um factor decisivo em 2021 para prosseguir a localização e instalação do Coralis no Oceano Atlântico português e, assim, estabelecer a MSP Mariculture Systems Portugal. Desde o início, o Forum Oceano, enquanto cluster do oceano, foi visível como motor da Economia Azul, e a DGPM, a DGRM e a AICEP partilharam coletivamente a ambição de concretizar este projeto de demonstração para replicação futura. Parece que há (um sinal precoce de) momentum para que a tecnologia do tipo Coralis seja reconhecida e valorizada como ‘infraestrutura azul crítica’, para verdadeiramente acelerar os projetos que poderiam e dariam a Portugal a posição que merece.

 


“Fomos obrigados a procurar no estrangeiro para a construção básica”


 

Para além da produção de peixe, que oportunidades poderia um projeto como o Coralis criar para a economia azul portuguesa, nomeadamente em áreas como a construção naval, automação, logística, serviços marinhos ou tecnologias digitais?

A sua pergunta tem a palavra ‘poderia’, o que é pertinente. Para o Coralis, pretendíamos construir com estaleiros navais, empresas de construção metálica, conglomerados industriais marítimos e empresas de engenharia portuguesas, mas este ecossistema não foi fácil de encontrar. Em alguns casos, confirmou-se simplesmente que o conhecimento tinha sido deslocalizado de Portugal, e que a legislação dificultava possíveis colaborações. Isso obrigou-nos a procurar no estrangeiro para a construção básica. Ainda assim, há muitas colaborações na cadeia de valor: fornecedores de tecnologias, rações e juvenis, serviços locais, logística, investigação e monitorização, gerando empregos e casos de negócio para empreendedores independentes. Seria bom que o potencial fosse redescoberto no futuro depois de o primeiro Coralis ser prova de conceito.

 

Operar sistemas offshore de elevada tecnologia exige competências muito específicas. Portugal está preparado, em termos de talento e formação técnica, para responder a esta nova geração de aquacultura?

Boa pergunta, onde parece, pelas muitas candidaturas que recebemos, que existe muito conhecimento e experiência em aquacultura e no sector marítimo portugueses, no entanto na diáspora. As pessoas valorizam o desenvolvimento no seu país de origem e estão ansiosas por participar quando possível e relevante, também para regressar a Portugal. Temos uma equipa forte que pode também ser formadora para as próximas gerações, pelo que também nessa perspetiva a solução será pioneira.

 


“Um sistema Coralis exige cerca de 1,4 milhões de juvenis por mês”


 

Na sua opinião, qual será o maior desafio para construir confiança pública e demonstrar que a aquacultura offshore pode escalar de forma sustentável?

O tema discutido em todas e quaisquer conferências como a Aquaculture Europe em Valência, os Ocean Days de Bruxelas, o Blue Invest Day, o Blue Food Innovation Summit, o Seafood Expo Global e mais é o financiamento! E isso enquanto a confiança e o reconhecimento de que o offshore é o espaço para a aceleração está a chegar a um ritmo mais lento do que o necessário, como os relatórios e o comportamento dos investidores indicam, com vários investidores de impacto a terem experiências mistas com as suas participações em projectos RAS. Há extensa reportagem de que os investidores em RAS necessitam de uma visão de retorno mais longa do que as suas participações normais e os prazos para saídas. O segundo desafio é o financiamento público, que deve funcionar como catalisador e de-risking para investidores privados e institucionais. Em projetos de energia eólica offshore, o financiamento público é habitualmente de 5 a 15% na estrutura de capital. O terceiro desafio é o fornecimento de juvenis, onde um sistema Coralis exige segurança de fornecimento de 1,4 milhões de juvenis por mês. No nosso caso, estamos a criar condições para uma ‘Plataforma Estratégica de Nursery Atlântica’ em Portugal com parcerias estratégicas, como instalação autónoma de fornecimento a uma distância muito próxima dos seus clientes que se espera serem muito mais do que as actuais explorações near shore, em estuário e em terra, antecipando a aceleração da aquacultura offshore no corredor Algarve – Cádiz.

Imagem de capa: Mariculture Systems Portugal

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