Daniela Amorim
Técnica de Comunicação & Marketing
Daniela Amorim , Técnica de Comunicação & Marketing
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Existe um setor que transforma resíduos de peixe em materiais para captura de CO₂, que usa microorganismos marinhos para desenvolver novos fármacos, que estuda algas como alternativa sustentável a matérias-primas terrestres. Um setor que, a nível global, deverá valer centenas de milhares de milhões de euros até ao final desta década e que, na Europa, conta com estratégias próprias, financiamento dedicado e uma comunidade científica ativa.
E que, apesar de tudo isso, a maioria das pessoas nunca ouviu mencionar.
Chama-se bioeconomia azul. E o seu maior desafio não é científico: é de visibilidade.
Não faltam resultados. Não faltam projetos, publicações, patentes ou casos de sucesso. O que falta é a tradução: a capacidade de levar esse conhecimento do laboratório até à conversa do dia a dia. Fazer chegá-lo a quem nunca lerá um artigo científico.
E, portanto, o fosso não está na qualidade da ciência. Está na linguagem com que ela é partilhada, ou não é.
Vivemos numa era em que a atenção é o recurso mais escasso e em que uma imagem tem décimas de segundo para parar um scroll. A bioeconomia azul não joga fácil neste campo: os seus protagonistas são microalgas, esponjas marinhas, microorganismos que habitam fundos oceânicos. Não têm o apelo visual imediato de uma baleia, nem a carga emocional de um recife de coral a desaparecer.
Isso não os torna menos relevantes: torna-os mais difíceis de comunicar. E essa dificuldade, quando não é ativamente trabalhada, transforma-se em invisibilidade.
Quando o fosso entre a ciência e o público se alarga, instala-se algo perigoso: a ideia de que a ciência é um território exclusivo dos cientistas e investigadores. Um mundo fechado, com lógicas próprias, que não diz respeito à vida de mais ninguém.
A consequência não é apenas o desconhecimento. É a desconfiança. Quando as pessoas não compreendem o que se faz, nem porquê, nem para quem, tornam-se recetivas a narrativas que distorcem ou simplificam em excesso. O silêncio comunicativo não é neutro, gera incerteza, e a incerteza atrasa a aceitação social de soluções que o mundo precisa urgentemente.
Portugal tem uma Zona Económica Exclusiva que ultrapassa 1,7 milhões de km², a terceira maior da União Europeia. No papel, uma posição invejável. Na prática, uma promessa que ainda não se cumpriu por inteiro.
Como Patrícia Gonçalves, Coordenadora de Comunicação e Marketing do B2E CoLAB, argumentou recentemente neste site, o problema não é a falta de ciência nem de tecnologia: é a incapacidade de traduzir esse potencial em valor económico reconhecido pelo mercado. Empresas fora do setor olham para o oceano e vêem complexidade, risco e retorno incerto. O capital hesita onde faltam modelos de negócio claros e dados estruturados.
Mas há um passo ainda anterior a esse desalinhamento. Um mercado não reconhece valor naquilo que a sociedade não conhece. Sem literacia azul, não há procura, não se formam decisores informados e não existe pressão para que o setor seja tratado como prioridade. A visibilidade pública não é cosmética, é a condição para que todo o resto aconteça.
O problema de Portugal com o oceano começa, portanto, antes do investimento. Começa na conversa que ainda não aconteceu.
A bioeconomia azul não chegará à conversa do jantar por si só. Não chegará apenas porque os resultados são bons, ou porque o financiamento europeu existe, ou porque as políticas avançam. Chegará quando cientistas, empresas, instituições e comunicadores investirem tanto na mensagem como na investigação, quando a divulgação for tratada como parte do trabalho, não como um extra.
Tornar uma ideia visível não é menos rigoroso do que produzi-la. É, muitas vezes, o que decide se ela chega a algum lado.
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