Opinião

Porque é que a bioeconomia azul ainda não chegou à conversa do jantar?

Daniela Amorim

Técnica de Comunicação & Marketing

“Um mercado não reconhece valor naquilo que a sociedade não conhece.”
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Porque é que a bioeconomia azul ainda não chegou à conversa do jantar?

Daniela Amorim , Técnica de Comunicação & Marketing

18 de Junho de 2026

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Existe um setor que transforma resíduos de peixe em materiais para captura de CO₂, que usa microorganismos marinhos para desenvolver novos fármacos, que estuda algas como alternativa sustentável a matérias-primas terrestres. Um setor que, a nível global, deverá valer centenas de milhares de milhões de euros até ao final desta década e que, na Europa, conta com estratégias próprias, financiamento dedicado e uma comunidade científica ativa.

E que, apesar de tudo isso, a maioria das pessoas nunca ouviu mencionar.

Chama-se bioeconomia azul. E o seu maior desafio não é científico: é de visibilidade.

 

O problema não está no conteúdo

Não faltam resultados. Não faltam projetos, publicações, patentes ou casos de sucesso. O que falta é a tradução: a capacidade de levar esse conhecimento do laboratório até à conversa do dia a dia.  Fazer chegá-lo a quem nunca lerá um artigo científico.

E, portanto, o fosso não está na qualidade da ciência. Está na linguagem com que ela é partilhada, ou não é.

 

Nem todos os heróis são fotogénicos

Vivemos numa era em que a atenção é o recurso mais escasso e em que uma imagem tem décimas de segundo para parar um scroll. A bioeconomia azul não joga fácil neste campo: os seus protagonistas são microalgas, esponjas marinhas, microorganismos que habitam fundos oceânicos. Não têm o apelo visual imediato de uma baleia, nem a carga emocional de um recife de coral a desaparecer.

Isso não os torna menos relevantes: torna-os mais difíceis de comunicar. E essa dificuldade, quando não é ativamente trabalhada, transforma-se em invisibilidade.

 

O silêncio tem custos

Quando o fosso entre a ciência e o público se alarga, instala-se algo perigoso: a ideia de que a ciência é um território exclusivo dos cientistas e investigadores. Um mundo fechado, com lógicas próprias, que não diz respeito à vida de mais ninguém.

A consequência não é apenas o desconhecimento. É a desconfiança. Quando as pessoas não compreendem o que se faz, nem porquê, nem para quem, tornam-se recetivas a narrativas que distorcem ou simplificam em excesso. O silêncio comunicativo não é neutro, gera incerteza, e a incerteza atrasa a aceitação social de soluções que o mundo precisa urgentemente.

 

O caso de Portugal

Portugal tem uma Zona Económica Exclusiva que ultrapassa 1,7 milhões de km², a terceira maior da União Europeia. No papel, uma posição invejável. Na prática, uma promessa que ainda não se cumpriu por inteiro.

Como Patrícia Gonçalves, Coordenadora de Comunicação e Marketing do B2E CoLAB, argumentou recentemente neste site, o problema não é a falta de ciência nem de tecnologia: é a incapacidade de traduzir esse potencial em valor económico reconhecido pelo mercado. Empresas fora do setor olham para o oceano e vêem complexidade, risco e retorno incerto. O capital hesita onde faltam modelos de negócio claros e dados estruturados.

Mas há um passo ainda anterior a esse desalinhamento. Um mercado não reconhece valor naquilo que a sociedade não conhece. Sem literacia azul, não há procura, não se formam decisores informados e não existe pressão para que o setor seja tratado como prioridade. A visibilidade pública não é cosmética, é a condição para que todo o resto aconteça.

O problema de Portugal com o oceano começa, portanto, antes do investimento. Começa na conversa que ainda não aconteceu.

 

A responsabilidade é partilhada

A bioeconomia azul não chegará à conversa do jantar por si só. Não chegará apenas porque os resultados são bons, ou porque o financiamento europeu existe, ou porque as políticas avançam. Chegará quando cientistas, empresas, instituições e comunicadores investirem tanto na mensagem como na investigação, quando a divulgação for tratada como parte do trabalho, não como um extra.

Tornar uma ideia visível não é menos rigoroso do que produzi-la. É, muitas vezes, o que decide se ela chega a algum lado.

 

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