Patrícia Gonçalves
Communication and Marketing Manager
Patrícia Gonçalves , Communication and Marketing Manager
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À mulher de César não basta ser, é preciso parecer. Na economia azul, em Portugal, o problema é semelhante: o valor existe, mas nem sempre é percebido como tal.
Se fosse um país, o oceano seria hoje uma das maiores economias do mundo. E, segundo o World Economic Forum, poderá crescer de 2,6 biliões de dólares em 2020 para 5,1 biliões até 2050. Ou seja, à escala global, o potencial está identificado. O valor existe. O investimento acompanha.
Mas Portugal continua a olhar para este tema como se ainda estivesse por provar.
Numa das conversas no Blue Wink-E 2026, ficou uma ideia simples: mesmo estando próximo do oceano, Portugal continua de costas voltadas para ele. A constatação surgiu de um empresário, confrontado com uma questão direta: porque é que as empresas de inteligência artificial em Portugal ainda não se ligam ao setor do mar?
A resposta não foi técnica. Foi crua.
Em Portugal, muitas empresas de diferentes setores – que não o mar – quando desafiadas a olhar para o oceano, não reagem com ambição. Reagem com hesitação: complexidade elevada, operação difícil, retorno incerto.
E, na verdade, essa leitura não está totalmente errada. O oceano não é um ambiente simples. Trabalhar no mar implica custos elevados, riscos operacionais, ciclos longos e enquadramentos regulatórios exigentes.
Mas não podemos confundir dificuldade com falta de oportunidade.
Outros países fizeram esse caminho. Não por terem um mar mais fácil, mas por terem criado condições para transformar potencial em indústria.
Onde existe escala, dados estruturados e modelos de negócio claros, o investimento segue. Basta olhar para a aquacultura na Noruega, para a energia offshore no Norte da Europa ou para algumas áreas da biotecnologia azul, como ingredientes à base de algas ou novos compostos bioativos. Quando estas condições existem, o capital entra. Quando não existem, hesita.
O desalinhamento persiste. Não entre ciência e tecnologia, essas existem e continuam a avançar, mas entre o potencial que conseguimos gerar e a forma como o conseguimos traduzir em valor reconhecido.
É neste ponto que ganham relevância estruturas que não se limitam a produzir conhecimento, mas que o organizam, ligam ao mercado e o tornam acionável, aproximando ciência, empresas e investimento e criando condições para validação e escala. É também aqui que iniciativas como o B2E CoLAB procuram atuar: não apenas na produção de conhecimento, mas na sua tradução em soluções que possam ser testadas, compreendidas e adotadas pelo mercado.
No fim, a questão não é se conseguimos inovar no oceano. A questão é se conseguimos tornar essa inovação suficientemente clara, comparável e escalável para que o mercado a reconheça como oportunidade.
Porque, no mercado, não basta ser. É preciso parecer.
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