Carlos Pereira
Innovation Manager
Carlos Pereira , Innovation Manager
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Portugal é um país de mar, com uma vasta e rica área marítima, mas nem sempre isso se reflete no que chega ao nosso prato.
Apesar da riqueza da nossa costa, grande parte do pescado consumido é importado, sendo que uma fatia significativa vem de aquacultura estrangeira, sobretudo espécies como salmão, robalo e dourada. Enquanto isso, a produção nacional, tanto da pesca como da aquacultura, muitas vezes mais sustentável e com maior qualidade, permanece subvalorizada. Esta realidade levanta uma questão estratégica: como transformar a valorização do pescado local num motor de desenvolvimento para a bioeconomia azul?
A resposta pode passar por três dimensões: cultura, inovação e proximidade. A cultura gastronómica portuguesa tem uma relação profunda com o mar, mas essa ligação está a perder-se face à uniformização dos mercados. Recuperar receitas tradicionais e dar-lhes uma nova vida é mais do que nostalgia: é uma forma de criar valor económico e identidade. Espécies como cavala, carapau ou sarda, outrora protagonistas, foram relegadas para segundo plano, enquanto a maioria das escolhas recai sempre sobre as mesmas espécies “de conforto”, ignorando a diversidade que o nosso mar oferece. Esta tendência não é apenas cultural, é também ambiental: ao ignorarmos espécies abundantes e locais, aumentamos a pressão sobre recursos mais escassos e dependemos de cadeias de abastecimento globais com elevada pegada de carbono.
É aqui que entra a inovação alimentar. Não basta dizer ao consumidor que deve comer diferente; é preciso criar soluções que respondam às suas expectativas. Produtos prontos a consumir, novas técnicas de conservação, embalagens sustentáveis e storytelling sobre origem e frescura podem transformar espécies menos conhecidas em escolhas desejadas. O mesmo se aplica à aquacultura nacional, que pode ser uma aliada estratégica para garantir disponibilidade e qualidade, reduzindo a dependência de sistemas intensivos estrangeiros. Apostar em espécies locais, em práticas mais sustentáveis e em produtos diferenciados é essencial para criar valor e confiança. Os atores da bioeconomia azul, desde investigadores a empresas e produtores, deverão estar na linha da frente desta transformação, ligando ciência, tecnologia e gastronomia para gerar valor a partir do que já temos.
A proximidade é outro fator crítico. Circuitos curtos reduzem pegada ecológica, aumentam frescura e fortalecem economias locais. Mas para isso é necessário mais do que vontade: é preciso criar redes entre pescadores, produtores aquícolas, restaurantes, retalhistas e consumidores, apoiadas por tecnologia e logística inteligente. Plataformas digitais que conectem oferta e procura, certificações de origem que transmitam confiança e campanhas que mostrem o impacto positivo destas escolhas podem mudar comportamentos. Imagine um consumidor que, ao escolher um prato de cavala, sabe que está a apoiar uma comunidade costeira, a reduzir emissões e a preservar biodiversidade. Essa narrativa tem poder.
Valorizar o pescado local, seja da pesca ou de aquacultura nacional, não é apenas uma questão de mercado ou um capricho gourmet, é uma estratégia para garantir sustentabilidade, reforçar a resiliência das comunidades costeiras e posicionar Portugal como referência na bioeconomia azul. Do mar ao prato, cada escolha conta e pode ser o início de uma cadeia virtuosa que liga tradição, inovação e futuro.
Se queremos uma bioeconomia azul robusta e verdadeiramente sustentável, temos de começar pelo óbvio: dar valor ao que é nosso.
O que temos feito no B2E CoLAB
No B2E CoLAB, acreditamos que literacia é ação. Temos desenvolvido iniciativas para aproximar consumidores do pescado nacional, desmistificar a aquacultura e espécies menos conhecidas e promover escolhas informadas. Em paralelo, apoiamos o retalho na garantia da qualidade e rastreabilidade do pescado, através de projetos como Vertical Fish, integrado no Pacto da Bioeconomia Azul, que aposta em inovação e transparência ao longo da cadeia de valor.
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