Ana Braga
Gestora Transferência de Conhecimento
Ana Braga , Gestora Transferência de Conhecimento
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Portugal já dispõe de competências científicas, infraestruturas e projetos relevantes na área da biotecnologia azul. O desafio está agora em transformar esse conhecimento em soluções capazes de ganhar escala industrial e chegar ao mercado.
O primeiro entregável do projeto BLUEVALSTEP, desenvolvido no âmbito da Strategic Technologies for Europe Platform (STEP), procurou precisamente aprofundar esta realidade através de um diagnóstico do Sistema Nacional de Inovação ligado à valorização de coprodutos marinhos. O trabalho incluiu o mapeamento das entidades que integram este ecossistema, bem como das principais competências científicas, tecnológicas e institucionais associadas ao setor.
O estudo identificou um ecossistema nacional composto por 53 entidades, incluindo Laboratórios Colaborativos, centros de investigação, parques de ciência e tecnologia, incubadoras, infraestruturas científicas e test beds. Esta diversidade evidencia a existência de uma rede já relevante e capaz de apoiar investigação, demonstração tecnológica e transferência de conhecimento.
A análise das competências científicas e tecnológicas centrou-se nos projetos e patentes identificados na área da valorização de coprodutos marinhos. Foram mapeados 36 projetos core, com níveis de maturidade tecnológica maioritariamente situados entre TRL 4 e 7, sinalizando que várias soluções já ultrapassaram a fase inicial de prova de conceito e se encontram em processos de validação em ambientes relevantes.
No domínio da propriedade intelectual, foram validadas cinco famílias de patentes entre 2020 e 2024, todas pertencentes a universidades e centros de investigação. Este dado demonstra que existe produção de conhecimento científico e tecnológico relevante em Portugal, mas evidencia também que continua a existir um hiato importante entre a investigação académica e a industrialização.
Ao mesmo tempo, o trabalho permitiu identificar três grandes áreas estratégicas de desenvolvimento: aplicações biomédicas e cosméticas, circularidade industrial e novos materiais, e nutrição funcional e aquacultura 4.0. Estas áreas mostram o potencial da biotecnologia azul para gerar novos produtos, materiais e soluções de valor acrescentado a partir de recursos marinhos e coprodutos atualmente subaproveitados.
Do ponto de vista institucional, Portugal beneficia de um enquadramento estratégico alinhado com as prioridades europeias, através de instrumentos como a Estratégia Nacional para o Mar 2021–2030 e o Programa Mar 2030, que reconhecem a biotecnologia azul como uma área prioritária para o desenvolvimento económico e sustentável.
Contudo, o estudo identificou também desafios importantes ao nível regulamentar. Atualmente, não existe um enquadramento jurídico específico para os coprodutos marinhos, permanecendo este domínio dependente de normas dispersas associadas a resíduos e subprodutos animais. Esta fragmentação pode dificultar a valorização económica destes recursos e criar incerteza para empresas, investidores e entidades científicas.
Em síntese, Portugal reúne hoje ativos naturais, competências científicas, capacidade tecnológica e um ecossistema de inovação relevante para afirmar a biotecnologia azul como uma área estratégica. O principal desafio passa agora por acelerar a ligação entre ciência, indústria e mercado, criando condições para que o conhecimento produzido consiga transformar-se em atividade económica, inovação industrial e cadeias de valor mais robustas.
Com este trabalho, o B2E CoLAB pretende contribuir para uma base de conhecimento mais estruturada sobre o setor, apoiando a definição de instrumentos que reforcem a articulação entre investigação, tecnologia, indústria e políticas públicas. O objetivo passa por ajudar a criar condições para uma bioeconomia azul mais competitiva, circular e orientada para a valorização sustentável dos recursos marinhos.
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