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Foi com esta pergunta, colocada ao público em tempo real, que arrancou a mesa-redonda do Blue Wink-E 2026 | Ocean AI Futures, um dos momentos de reflexão mais ricos do evento, moderada por Patrícia Gonçalves, gestora de comunicação e marketing do B2E Blue Bioeconomy CoLAB. A resposta foi clara e sem ambiguidades: o talento e a liderança estão no centro desta discussão. Acima dos algoritmos e dos modelos, estão as pessoas. Esta conclusão tornou-se o fio condutor de uma conversa necessária sobre o papel da Inteligência Artificial na bioeconomia azul, bem como o que ainda falta fazer para que esse potencial se transforme em realidade.
Álvaro Sardinha, fundador e CEO do pelo Centro de Competências em Economia Azul, foi direto: os líderes, na sua maioria, ainda não conhecem profundamente a economia azul. Olham para o mar com a visão que têm: quem é da praia, vê a praia; quem é do peixe, vê o peixe.
Mas a economia azul é muito mais. É o ciclo completo da água, é a biotecnologia, é a energia offshore, é a biodiversidade marinha. Para liderar neste espaço com a IA como aliada, é preciso primeiro compreender o território.
A mensagem foi incisiva: não haverá Inteligência Artificial verdadeiramente útil sem Inteligência Emocional. Os líderes eficazes são aqueles capazes de fazer as perguntas certas, de regular a tecnologia, de a orientar para o bem comum. E quem tem medo do desemprego causado pela IA? “Não precisa. Vamos precisar de mais humanos: humanos mais competentes, mais curiosos, mais capazes de ver além do óbvio”, respondeu Álvaro Sardinha.
Kelwin Fernandes, CEO da NILG.AI trouxe para a mesa um diagnóstico pragmático sobre a realidade portuguesa: o tecido económico nacional é maioritariamente constituído por micro e pequenas empresas de serviços. O oceano, por sua vez, exige escala, e escala exige investimento, tempo e dados.
E aqui reside um dos maiores entraves. Ao contrário do que aconteceu com a internet e as redes sociais, que alimentaram modelos de IA generalistas com grandes quantidades de dados abertos, o oceano não dispõe desse repositório. Os dados existem, mas estão fragmentados, dispersos, frequentemente fechados em gavetas de empresas e instituições.
A solução passa necessariamente pela colaboração. As empresas ligadas ao Oceano precisam de se unir para recolher, partilhar e valorizar os seus dados. Só assim se poderão construir ferramentas de IA verdadeiramente poderosas para o setor. Neste contexto, iniciativas como os Common European Data Spaces surgem como infraestruturas fundamentais para criar mercados de dados que incentivem a partilha e gerem valor para todos os participantes.
Os exemplos concretos partilhados na mesa revelam que a IA no oceano não é ficção científica: é uma realidade em construção.
Guilherme Beleza Vaz, fundador e CEO da blueOASIS apresentou casos inspiradores. Nos Açores, digital twins de zonas marinhas, como o Monte Condor, combinam sensores, acústica e marcação de animais (tubarões, baleias, raias) para criar representações dinâmicas do ecossistema em tempo real. Os próprios animais funcionam como sensores vivos, transmitindo dados que alimentam modelos capazes de simular cenários futuros.
João Claro, chairman e CEO do INESC TEC, acrescentou uma perspetiva fundamental. No oceano não existe apenas um digital twin, existem vários, com diferentes dimensões e geografias. E por isso, defendeu, os dados oceânicos, apesar de crescentes, continuam fragmentados, o que torna a sua agregação de forma inteligente uma prioridade.
É aqui que a IA tem um papel decisivo na articulação de múltiplos digital twins, extraindo a informação mais relevante sobre gestão de ecossistemas, monitorização de poluição e outros desafios críticos. O objetivo não é apenas observar o oceano em tempo real, mas também criar cenários, antecipar consequências e tomar decisões com base em dados.
Na aquacultura, os avanços são igualmente significativos. A IA aplicada à identificação de espécies, deteção de doenças, estimativa de peso e monitorização do comportamento dos peixes através de câmaras e acústica está a reduzir custos operacionais, diminuir emissões de carbono e aumentar a sustentabilidade das produções. Menos mergulhadores, menos intervenções, menos perturbação do ecossistema e mais dados em tempo real para decisões mais inteligentes. A Noruega já o faz há 15 anos com o salmão. Segundo Guilherme Beleza Vaz, Portugal poderia percorrer o mesmo caminho com as suas espécies.
Um dos momentos mais marcantes da conversa foi a reflexão sobre a forma como abordamos os dados e os modelos de IA. Kelwin Fernandes partilhou uma experiência da área da saúde que tem enorme aplicabilidade no oceano: durante anos, construíram modelos complexos a partir de ensaios clínicos extensos e dispendiosos. Quando mudaram a abordagem, recorrendo a entrevistas com especialistas para identificar os padrões que realmente observavam e pedindo à IA que os reconhecesse nas imagens, os resultados superaram tudo o que tinham feito anteriormente.
Como realçou Kelwin Fernandes, a lição é poderosa. A era da IA não é apenas sobre ter mais dados: é também sobre fazer as perguntas certas. Aplicado ao oceano e à biotecnologia azul, isto significa repensar a abordagem à descoberta científica. Os dois últimos Prémios Nobel (da Física e da Química), aludiu o CEO da NILG.AI, foram atribuídos a trabalhos diretamente relacionados com IA, incluindo a descoberta de moléculas com potencial para curar doenças. A biotecnologia azul, com a sua imensa diversidade de organismos marinhos ainda por estudar, está na linha da frente desta revolução.
João Claro sublinhou que o maior desafio na economia azul é o cruzamento de tecnologias emergentes com cadeias de valor igualmente emergentes. A solução passa por infraestruturas partilhadas que aceleram a aprendizagem coletiva, percursos claros de validação e de-risking que dão confiança a empreendedores e investidores, e políticas públicas que criem condições ágeis e robustas para experimentar: como os living labs e as sandboxes regulatórias.
Mas o ponto de partida, voltaram a sublinhá-lo todos os intervenientes, é a educação. O modelo da Estónia foi evocado por Álvaro Sardinha como inspiração, assente num programa onde os estudantes não recebem respostas das ferramentas de IA, recebem perguntas. “É assim que se formam as gerações capazes de navegar, questionar e moldar um futuro tecnológico ao serviço do planeta”, apontou.
É neste cruzamento entre educação, liderança e tecnologia que está a ser construído o futuro da bioeconomia azul. O oceano cobre 97% do território português. Durante demasiado tempo, foi ignorado. A Inteligência Artificial não resolve o problema sozinha, mas pode ser a ferramenta que muda essa relação.
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